Marcadores inflamatórios aplicados à Medicina Legal
Inflammatory markers in Forensic Medicine


 

Guilherme Zanutto Cardillo
Interno do sexto ano da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP); representante discente na Comissão de Bioética do Hospital das Clínicas da FMUSP

Mario Perez Gimenez
Médico-Legista, Professor de Medicina Legal na Academia de Polícia do Estado de São Paulo

Roberto Souza Camargo
Professor Livre-Docente e Associado da FMUSP; Médico-Legista; Advogado

Correspondências para:
mariogimenez@medicinalegal.com.br


 

Resumo

A presente revisão de marcadores inflamatórios objetiva acrescentar aos trabalhos já classicamente consagrados, as novas tendências investigativas no diagnóstico diferencial entre lesão vital e post mortem. A fronteira no conhecimento reside na compreensão detalhada do processo inflamação e cicatrização. Da análise circunstanciada da literatura, citocinas, matriz extracelular e marcadores genéticos constituem campo promissor de pesquisas.

De poucos minutos até 10h após a lesão, constituem marcador de vitalidade as aminas vasoativas (histamina e serotonina), as catepsinas, os inibidores da proteinase, a fibronectina, a prostaglandina PGF2a, as citocinas IL-1, IL-6, G-CSF e MRP-14, a proteína C5-b9 e, de linhagem celular, os neutrófilos. De 2h até alguns dias, pode-se utilizar enzimas (fosfatase ácida e alcalina, ATPase, esterases não específicas e aminopeptidases), a defensina e, celularmente, a adesão eritrocitária e a presença de macrófagos e, após alguns dias de estabelecimento da lesão vital, pode-se encontrar positividade para reticulina, síntese de DNA, macrófagos com grânulos de hemossiderina e as citocinas IL-2, MIB-1 e MRP-8.

No entanto, a maioria dos estudos foi realizada em feridas incisas cutâneas, necessitando de estudos mais abrangentes acerca da aplicabilidade dos diversos marcadores apresentados para outras localizações anatômicas bem como outros pontos da fenômenologia médico-legal acerca da transição vida-morte.

Introdução

O diagnóstico de vitalidade das lesões, a partir do século XX, ganhou outra dimensão com a evolução das técnicas de microscopia. Com os avanços na compreensão do processo cicatricial, bem como na reação inflamatória aguda nas últimas décadas, o presente estudo dos mediadores de reação inflamatória permite colaborar para a elucidação da maioria dos casos de vitalidade. Não obstante, a freqüência dos casos que se investiga, as diferentes reações que aparecem nos diversos tecidos e células continuam sendo um problema latente, sem resolução definitiva.

Segundo Fávero (4), interessa à justiça, grandemente, o diagnóstico diferencial entre as lesões em vida e post mortem, porque permite esclarecerem-se questões relacionadas à produção de traumas mortais ou não, acidentalmente ou não.

Em 1954, Strassman definiu reação vital baseando-se em uma definição prévia de Plenk de 1786 como "aquela quando aparece em tecidos e órgãos, sendo necessária a presença de células vivas". Vinte séculos antes, o médico romano Aulo Cornélio Celso (século I d.C.) descreveu os sintomas que caracterizam esta reação nas feridas cutâneas: calor, rubor, tumor e dor.

Uma das características dos tecidos vivos é a sua capacidade de responder aos estímulos externos. Quando o estímulo é uma agressão traumática (biológica, física ou química), a reação tissular consiste em uma resposta constituída essencialmente por uma reação inflamatória aguda, geralmente proporcional à magnitude da agressão. Tal fenômeno foi descrito por John Hunter em 1873 como "a inflamação é um efeito destinado a restaurar a função normal, não devendo ser considerado uma enfermidade, mas um processo benéfico que se produz pela atuação de uma agressão".

A reação inflamatória é um fenômeno complexo, ainda não totalmente conhecido, constituído por vários processos encadeados (bioquímicos, celulares, vasculares) que se situam dentro de um objetivo comum de destruir a agressão e reparar o dano produzido. Mas, no entanto, a reação inflamatória inclui outros fenômenos que não são considerados elementos de resposta inflamatórios strictu sensu, como agregação plaquetária, ativação do complemento, ativação das prostaglandinas etc. O processo cicatricial, objetivando o reparo tecidual, decorre de uma seqüência complexa e organizada de eventos, envolvendo uma modificação consecutiva nas proteínas da matriz extracelular (MEC), através da liberação de fatores de crescimento, citocinas e fatores estimuladores. Durante este processo, no caso da cicatrização da pele, a migração de queratinócitos ocorre de tal forma a formar uma nova camada e um leito provisório é construído, por meio de síntese de proteínas da matriz extracelular (fibrina, fibrinogênio, fibronectina, tenascina e vitronectina) (1,3,17).

Do exposto, objetivamente, reação vital compreende todos os complexos processos que se ativam no tecido vivo perante a agressão, não ocorrendo no tecido morto.

 

Diagnóstico de vitalidade nas lesões

 

Thoinot, grande mestre da Medicina Legal, destaca especial atenção às lesões produzidas após a morte e suas diferenças com as de origem vital. Em relação à patologia forense, inúmeros são os casos para aplicação do diagnóstico diferencial in vivo versus post mortem, observando-se características distintas de ambas as fases.

Se a lesão é produzida quando o indivíduo estava vivo, produzir-se-á uma reação celular, constituída por uma resposta inflamatória aguda, que se revelará pelos clássicos sinais de Celso. Se a lesão foi produzida depois da morte, não ocorrerá lesão vital.

Legrand du Salle diferencia as lesões vitais através de diversas características, dentre elas as bordas das feridas ficam aumentadas (por edema), ocorrendo infiltração de sangue e separação pela retração da derme e tecidos subjacentes. Posteriormente, ocorrerá presença de exsudato e supuração. Haverá hemorragia abundante inicialmente, com infiltrado de sangue nos tecidos adjacentes. Posteriormente, encontra-se sangue coagulado no fundo da ferida e na pele. Já as lesões post mortem se caracterizam por bordas das feridas brancas, não edemaciadas, aproximadas, não havendo retração tecidual. Não ocorre exsudação ou supuração, bem como não haverá hemorragia arterial ou venosa, infiltração nos tecidos ou coagulação sangüínea.

Porém, o problema surge quando a ferida se forma nos momentos próximos à morte. Os limites entre a vida e a morte não são exatos. Os tecidos e órgãos reagem de forma diferente à anóxia, com características diferentes em virtude de múltiplos fatores, como temperatura ambiente, presença de circulação colateral ou trminal, da causa da morte, duração da agonia, terapêutica administrada nos últimos momentos de vida, mas nunca de forma imediata. Assim, a estimativa do tempo da ferida no intervalo pós-traumático imediato é dificultado devido a reações supravitais e a mudança morfológica mínima neste período (4).

Se o corpo sofre algum tipo de agressão durante este processo, os tecidos reagirão de maneira semelhante à descrita anteriormente, conhecida como reação vital. É o que se chama de reação agônica ou reação intermédia, termos que pela sua indefinição, revelam a imprecisão da própria reação produzida.

Nestes casos, o simples exame macroscópico não é possível. É o que levou Tourdes a formular a existência de um Período de Incerteza Diagnóstica, que quantificou em 6h antes e 6h depois da morte.

 

Marcadores de vitalidade

Na literatura, observam-se vários tipos de métodos e marcadores para aplicação do diagnóstico diferencial de vitalidade e post mortem (8). Para facilitar o estudo, pode-se dividir, didaticamente, em grupos analisando aspectos macroscópicos e microscópico das lesões ou de acordo com a técnica empregada.

 

Exame Macroscópico

 

Quanto ao Exame Macroscópico, Hoffmann e Haberda, em 1909, elencaram os sinais macroscópicos da resposta inflamatória aguda e que permite configurar a resposta vital do tecido, importantes como a hemorragia, o coágulo, aspiração do sangue, corpo estranho etc.

 

Exame Microscópico

 

O Exame Microscópico, realizado inicialmente com microscópio óptico e atualmente, com o auxílio de diferentes tecnologias (microscópio eletrônico, eletrônico de varredura), associado à evolução na elaboração de corantes, como no emprego de técnicas imunohistoquímicas ou de imunofluorescência, tem permitido o desenvolvimento de amplos número de marcadores de vitalidade que permitiram a redução dos casos no "período de insegurança". São os seguintes:

 

Marcadores bioquímicos

Do ponto de vista da biologia celular, as enzimas presentes nos grânulos de lisossomos podem ser utilizadas como marcador de vitalidade. Em estudos com material decorrente de contusões, as enzimas aparecem no segundo dia parmanecendo positivas até o quinto dia. As catepsinas são enzimas digestivas lisossomais (peptidases), sendo identificadas até o momento catepsina A, B, C, D e E. A catepsina D é a mais abundante, dado sua ativação no foco da ferida, sobretudo na região de necrose perilesional, pela diminuição do pH após período de hipóxia. Através de determinação espectrofotométrica, permite o reconhecimento de vitalidade 5 minutos após o início da lesão, atingindo um pico cerca de 20 minutos, mantendo-se em concentração estável dos 30 à 120 min (12), o que não foi observado em tecido post mortem. A partir da lesão vital, foi observada sua estabilidade em até 72h post mortem.

I - Fase inflamatória

II - Fase de formação de tecido de granulação

III - Fase de formação de matriz e remodelação

 

Tabela 1. Expressão de citocina tempo-dependente no reparo de feridas cutâneas. A partir de Amberg (2), em estudo de lesões cutâneas utilizando interleucina 1(IL-1), interleucina 6 (IL-6) e fator estimulador de leucócitos granulares (G-CSF) como marcador de fase imediata, interleucina 2 como marcador de fase tardia e como marcador de proliferação celular e estimulação macrofágica os anticorpos de proteínas de fase-S (MIB1), marcador de estágio inflamatório agudo macrofágico I e II do complexo L-1 (MRP 8 e MRP14, respectivamente) e moléculas secretadas por neutrófilos maduros contra agentes microbianos (defensina), caracterizou a ocorrência de citocinas com o tempo de lesão, a partir de autópsias. O resultado pode ser visto no tabela 1: clique aqui